História

A fundação

1976. O Bloco Carnavalesco Dengosas do Marapé já não desfilava há onze anos. E os dias de glória do G.R.E.S. Unidos da Ponte Vermelha e do B.C. Embaixada de Santa Thereza também já eram parte do passado.

Por isso, aquela nova geração de sambistas que surgia no bairro – muitos deles, filhos dos integrantes destes blocos – acostumou-se a cruzar a cidade para encontrar o som dos surdos e tamborins. Este grupo não só fortalecia co-irmãs como a Brasil e a Império do Samba, como chamava a atenção da cena musical , já atenta à vocação do bairro em revelar talentos.

Quadra e AcessoO bloco Diabos da Vila Mathias também sabia disso. E por meio de seu diretor Magú e de Marco José de Souza, convidou alguns marapeenses para suas fileiras. Entre eles, Haroldo Medeiros, José Eduardo Bento, Jorge Jeremias de Campos (Simonal), Wanderley de Oliveira e Wilson de Oliveira, que contribuíram naquele ano para uma bela apresentação do bloco de cor vermelha.

A repercussão do desfile despertou na comunidade do Marapé um sonho antigo: ver nascer em seus domínios um reduto do samba, capaz de trazer seus “filhos” de volta.

Assim, na tarde de 12 de março daquele ano, reunidas no número 20 da Rua São Paulo, 27 pessoas decidiram tornar este sonho uma realidade.

Inspiradas pela “união” entre as comunidades de Marapé e Vila Mathias e pela ligação “imperial” dos presentes com a Império do Samba, elas batizavam a mais nova agremiação de Santos: o Grêmio Recreativo Escola de Samba União Imperial.

As cores oficiais escolhidas foram o verde, o rosa – em homenagem à Estação Primeira de Mangueira, que possuía a simpatia da maioria dos que lá estavam – e o dourado. Já o símbolo, uma águia – era referência a outra gigante carioca admirada pelos presentes: a Portela. Medeiros, que havia cedido a casa para aquele encontro, tornou-se o primeiro presidente.

Além dele e de José Bento, Simonal, Wanderley, Wilson e Marcos José, também assinaram seu nome na história, como fundadores: Alcino Simões, Alcione Gonçalves Fernandes, Antonio Duarte de Almeida, Aparecida Conceição Miranda, Carlos Alberto Quintal, Célio Silva, Diomar Luísa Campos, Francisco Carlos dos Santos, Gilberto Barroso, José Alves dos Santos, José Carlos Leite Medeiros, José Fernandes Duarte, Josué Almeida de Melo, Manuel Barros de Almeida, Mauro Alonso, Maurino Matias, Odil Proost de Souza, Pedro César da Silva, Sérgio Antunes, Wilson Siroma e Valdir Alves Capela.

O primeiro desfile

Ousadia dos fundadores e envolvimento da comunidade, que prontamente “abraçou” a causa. Esta combinação foi decisiva para que a União Imperial não se tornasse somente uma breve página no Carnaval santista.

Em 25 setembro de 1976, o primeiro fato marcante: uma comitiva formada por baluartes da Mangueira desembarcava no Salão Nobre da Associação Atlética Portuguesa, em Santos, para batizar sua mais nova afilhada. Delegado, Dona Zica e Bira da Mangueira foram saudados com o primeiro dos muitos sambas que ecoariam pelo Marapé, de autoria de Marco José de Souza:

“Parabéns a você, parabéns, ô ô
Parabéns a você, a Mangueira chegou…
Abram alas minha gente, quem faltava chegou
É a rainha do samba, é a Mangueira sim senhor…
Verde e rosa é tradição, verde e rosa é Mangueira
Verde e rosa é união e União não é brincadeira…”

FundaçãoA Estação Primeira de Mangueira batiza a União Imperial. Ao centro, Tia Iza.

Após esta noite memorável, a União Imperial começou a se preparar para o seu maior desafio : o desfile de estreia, em 1977. O primeiro ensaio de que se tem notícia aconteceu na esquina das ruas Carvalho de Mendonça e Alberto da Veiga. Depois, seguiu-se uma proposta das primeiras reuniões, com os ensaios acontecendo alternadamente no Marapé e Vila Mathias.

Apesar de integrar as comunidades, a medida durou pouco. Dificuldades técnicas e administrativas fizeram com que a agremiação ficasse definitivamente no Marapé. A decisão afastou alguns, mas aproximou outros que se tornariam fundamentais para a escola.

Caso de Elizabeth Chaga Bento, a Tia Iza, que cedeu o terreno em frente a sua casa, na esquina das ruas Heitor Penteado e Benedito Ernesto Guimarães, para que a União continuasse ensaiando. A hospitalidade foi tanta – nas noites de chuva, a bateria se abrigava sob o teto da garagem –, que ela se tornou madrinha da verde e rosa.

As poucos, as peças se encaixavam: a batuta de Simonal dirigia os ritmistas da bateria; Chocolate tornou-se mestre-sala, formando par com a porta-bandeira Verinha – a primeira convidada para conduzir o pavilhão, Ritinha de Miçangas, não chegou a se apresentar oficialmente. E Marco José de Souza compôs Nas Páginas Antigas, o primeiro samba-enredo oficial.

Ao pisar pela primeira vez na avenida, a escola também já contava em suas alas com um trio de amigos nascido e criado no Marapé: Heldir Lopes Penha, o “Aldinho”; Daniel Ferreira Barbosa Júnior, o “Zinho”; e Ricardo Peres. Era o início de trajetórias importantes: o primeiro se tornaria o presidente que ficou mais tempo à frente da escola; já Zinho e Ricardo, depois de passarem pela bateria e harmonia, se destacaram como compositores e intérpretes oficiais.

O desfecho do primeiro desfile foi surpreendente: vice-campeã do Grupo Dois. Na época, a colocação não fazia com que a escola subisse para o grupo principal, mas o mais importante para todas aquelas pessoas foi chegar à dispersão com a certeza do dever cumprido.

Quadra e Acesso ao Grupo 1

As escolas mais tradicionais da época faturavam alto nos chamados “sambões”. Fundadores e diretores da União sabiam disso e sonhavam com um espaço próprio.

Desde a fundação, a bateria era a principal fonte de recursos financeiros para a escola. Concorridas apresentações no IT Clube e diversos shows em outros locais contribuíram para reforçar o caixa. Das fileiras de ritmistas despontaram diversos nomes que se destacariam também em outros setores da verde e rosa.

Anos 70 - Apresentação no IT Clube.jpgVieram mais duas belas apresentações nos dois carnavais seguintes – em 1978, com o 3º lugar de Ontem, Hoje e Sempre e 1979, com o vice-campeonato de Sonho da Goméia” – e a atuação dedicada de diretores, componentes e benfeitores sinalizava que a promoção ao Grupo 1 seria apenas questão de tempo.

Deste período, merecem lembrança também a inauguração da barraca de praia da União Imperial, em frente ao Edifício Universo Palace, no bairro do José Menino; e o “batismo” da Ala de Compositores, que teve como madrinha a G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis, do Rio de Janeiro.

O ano de 1980 registra um acontecimento fundamental para a vida da União: a doação do primeiro terreno para construção da Quadra, na Rua São Judas Tadeu. A conquista, um comodato de 100 anos junto à Prefeitura Municipal, envolveu o então presidente Ronald Peres, o prefeito Paulo Gomes Barbosa e os vereadores Eduardo Castilho Salvador, Athiê Jorge Cury e José Gonçalves – então presidente de honra da agremiação.

Anos 80 -Aldinho ao centro

Além deles, muitas pessoas contribuíram na transformação daquele terreno baldio numa verdadeira sede: são lembrados o patrono Jorge Rodrigues do Vale; os irmãos Canuto; Mauro, Mário e Mariovaldo Alonso; Pedro Pacheco, Labruna e Fubá, entre outros.

O Calendário parecia trabalhar a favor da escola, literalmente. Após ensaiar provisoriamente em frente à Sociedade de Moradores do Marapé – hoje conhecida como “Sedinha” -, a escola despontou na avenida contando a história das datas comemorativas,– o primeiro samba-enredo escolhido em Concurso. Ao final da apuração, era a própria União Imperial quem ganhava uma data a mais para festejar: foi promovida ao Grupo Principal. De onde nunca mais saiu.

Em 1981, a quadra – batizada com o nome de Elizabeth Chagas Bento, Tia Iza, num reconhecimento à dedicação de sua madrinha – começou a ser utilizada. A União estreou no grupo de elite trazendo Chuvas de Prata e obteve o 4º lugar. Depois, dois quintos lugares: em 1982, com Brasil Folclórico e, em 1983, defendendo o enredo 1900 e Antigamente.

Neste período, durante a administração de Mauro Alonso, a infraestrutura da quadra ficou praticamente pronta – e apta a receber apresentações de sambistas de renome nacional. Coube à Clementina de Jesus a honra de inaugurar o palco da verde e rosa, em 1983. Posteriormente, vieram Elza Soares, Originais do Samba, Exportasamba e Germano Mathias, entre outros.

Propositadamente, a União ensaiava em dias que não coincidiam com as escolas mais antigas. E posteriormente adotou a cobrança de ingressos nos ensaios – iniciativa que se reverteria numa preciosa fonte de renda.

Além disso, as boas relações de diretores e componentes trouxeram mais colaboradores, como Mesquita, Bechir, Lino Alonso, Mesquitinha, Sérgio Formiga, Mário Assef, Irani Silva e a simpatia de alguns jornalistas da Baixada Santista, como Paulo Schiff, Miriam Bernardes e Maria Francisca Romão, entre outros. E a repercussão dos ensaios passou a motivar a presença de moradores de outros bairros da cidade, como Gonzaga, Boqueirão e Ponta da Praia.

Por fim, uma ousada parceria garantiu o aporte financeiro que faltava para a cobertura e ampliação da Quadra. Nilson Charré – que assumiria a presidência no ano seguinte – trouxe a Coca-Cola para explorar a comercialização de bebidas na quadra. Em dois anos, a União Imperial se tornaria a segunda maior revendedora de cerveja Kaiser do Brasil, atrás apenas do Estádio do Maracanã.

Mais estruturada, motivo de orgulho para a comunidade e com o número de simpatizantes aumentando cada vez mais, a escola entrou confiante na avenida em 1984, com o enredo “Vira, Gira, Vem Girando” correspondeu às expectativas. Num desempate garantido pelas notas do quesito bateria, a escola obteve o vice-campeonato do 1º Grupo, colocando-se pela primeira vez à frente de adversárias tradicionais.

O pentacampeonato

Os ensaios para o desfile de 1985 consolidaram uma revolução participativa no carnaval de Santos. Graças à verde e rosa, frequentar escolas de samba se transformou num hábito não mais restrito às comunidades próximas – e sim, num programa para toda a cidade.

Encontrar personalidades influentes de diversos segmentos nos ensaios era uma cena comum na época. O conceito do “bom, bonito e barato” havia emplacado. À União, faltava buscar o título.

Com sede de vitória, a Águia pairou na avenida defendendo seu enredo sobre astrologia e magia – Amanheceu, hoje é ontem. Com um conjunto refinado, irreverente e contagiante – características que se tornaram marcantes a partir dali – conquistou o público e obteve o reconhecimento dos jurados. A espera chegava ao fim: a escola de samba do Marapé, com apenas nove anos de vida, era a campeã do Grupo Principal.

1987 - Bateria - As Águas Vão Rolar
A bateria “aquece” no antigo Jumbo Eletro, no José Menino (1987).

Ainda que a disputa para o ano seguinte já desse sinais de acirramento, a União aproveitou o bom momento para valorizar seu patrimônio: comprou o terreno vizinho e ampliou sua Quadra. O efeito foi imediato: seus sambões “ferviam” como nunca aos sábados. E quase 4 mil pessoas prestigiaram a final da disputa de samba para Assim Dizia o Poeta, um enredo ousado de Zenaide Zampieri, que falava sobre as inspirações da escrita.

A diretoria teve trabalho desmembrando setores para poder abrigar os novos componentes. Uma das alas chegou a ser dividida em seis setores, para acomodar 1078 foliões. E o caixa, reforçado, trouxe originalidade e criatividade às alegorias e fantasias.

Pentacampeonato
O abre-alas do bicampeonato: Assim Diz o Poeta (1986).

Enfim, o que se viu na noite de 9 de fevereiro de 1986, na opinião de muitos, foi o ápice de uma escola de samba na história do carnaval santista. “Mais do que poesia, a União Imperial mostrou que chegou para marcar uma nova época no concurso oficial de escolas de samba”, resumia o jornal Cidade de Santos de 11 de fevereiro de 1986. Resultado: bicampeã.

Novas regras – Na divulgação do regulamento de 1987, a Liga das Escolas de Samba de Santos instituiu a diminuição do tempo de desfile. E a União Imperial, pela grande quantidade de componentes, era uma das agremiações que mais teria de se adequar às novas condições.

Assim, ao contar a história da cachaça em As Águas Vão Rolar, não abriu mão de carros alegóricos imponentes, nem de alas numerosas, mas os adaptou às novas exigências de harmonia e evolução. Resultado: tricampeonato em uma apuração dramática, finalizada com um ponto de vantagem em relação à segunda colocada (198 a 197).

1988 - Viva o Rei - Bateria - Milton Sintoni e Néia.jpg
O ritmo da Verde e Rosa contagia a avenida em Viva o Rei (1989). À frente, Milton Sintoni.

A fórmula seria mantida nos dois anos seguintes, garantindo um contundente penta-campeonato.

Em 1988, foi a vez de Viva o Rei, homenagem aos 39 anos do reinado de momo de Waldemar Esteves da Cunha, figura lendária do Carnaval Santista. Mesmo começando sua apresentação às 10h da manhã por conta de atrasos da programação, a escola emocionou a todos reverenciando Sua Majestade. Várias das 28 alas curvaram-se diante do palanque da corte carnavalesca.

Jornais da época anunciavam o tetra antes mesmo da apuração: “Foi a única escola que levantou, pela primeira vez, todo o público das arquibancadas”, dizia A Tribuna.

Dito e feito. E a conquista encerrou dois ciclos fundamentais na trajetória da agremiação. Depois de quatro títulos em quatro anos de mandato, Antonio de Souza Jr. deixava a presidência. Com ele, também despedia-se Marco Aurélio Bezerra, o “Marcão” carnavalesco de todas as conquistas no Grupo 1 até então. A presidência, então, foi reassumida por Mauro Alonso; e Da Mata, que era auxiliar de barracão há seis anos, tornou-se o carnavalesco.

E a vida se leva dançando, enredo de 1989, era um tema bem propício àquele momento de transição, na escola e no país. O Plano Collor havia encarecido a matéria-prima para alegorias e fantasias, o que demandou um pouco mais de trabalho na composição dos oito carros, treze tripés e das vestes de 3,5 mil componentes.

A escola foi prá avenida disposta a confirmar sua hegemonia E ao término de sua apresentação, protagonizou uma cena bem familiar: dia amanhecendo, público em êxtase e gritos de “É Campeã!” já na dispersão. E o resultado não poderia ser outro…

1988 - Viva o Rei - Regina e Valdir
O premiado casal Regina e Valdir em mais uma apresentação nota 10. (1989)

Pentacampeã com 13 anos de vida. A sequência inesquecível foi um dos maiores feitos da história do Carnaval santista, que até hoje orgulha e emociona a comunidade verde e rosa. Um sentimento que se traduziria também em perseverança e dignidade, a partir do ano seguinte.

Anos 1990, disputa acirrada

Sátira aos brasileiros sempre dispostos a levar vantagem em tudo, De Camelo à Camelô era o enredo de 1990, novamente com uma proposta irreverente. O samba era bem popular e o tema, explorado de maneira bem-humorada, renovava a confiança de todos.

A escola, porém, foi prejudicada por um atraso nunca antes visto na história do Desfile Oficial. Deveria desfilar às 4h da manhã, mas pisou na avenida ao meio-dia.  Sob um sol de 40º e umidade do ar baixíssima, a escola desfilou com muita garra, ainda que isso tenha custado uma série de desmaios em sua ala de baianas, intérpretes e ritmistas. Terminou em 3º lugar.

Mas o estilo consagrado no pentacampeonato ainda seduzia o público. Prova disso é que as pesquisas de arquibancada seguiram apontando a escola como favorita ao título nos anos de 1991 e 1992. De fato, a taça passou perto do Marapé: Às Suas Ordens Meu Amo e Brincadeira é Coisa Séria” renderam à escola o vice-campeonato e o terceiro lugar, respectivamente.

Tributo aos compositores populares, Aos mestres com carinho foi o enredo de 1993, tratado de maneira bastante poética, da comissão de frente ao último carro. Em entrevista ao jornal “A Tribuna”, Heldir Lopes Penha que havia voltado à presidência no ano anterior, resumia bem a nova proposta: “encontramos um meio-termo”, dizia.

Na passarela, a União trocou a preocupação excessiva pela alegria, conteve o gigantismo em nome da leveza e, como consequência, voltou a desfilar mais “com” do que “para” o público. E assim, chegou ao sexto título de sua história no Grupo Principal.

1993 - Aos Mestres com Carinho - Simonal e Neia
Mestre Simonal e Néia, Madrinha de Bateria da União Imperial, em 1993.

Já em 1994, a escola voltou às manchetes como bi-campeã. Num enredo celebrando o centenário do jornal A Tribuna, “Do Sonho à Realidade… 100 anos de Notícias, reviveu fatos marcantes da história dividida em 17 alas, doze carros alegóricos e cerca de 2,5 mil componentes.

A escola voltou a desfilar sob a luz do dia, mas desta vez, a história foi bem diferente do drama vivido em 1990. A bateria – que havia sofrido com os desmaios naquela ocasião – garantiu o par de notas dez que desempatou a apuração.

1994 - Cem anos de noticias - Intérpretes
Aldinho, Zinho, Ricardo Peres, Zinho do Cavaco e Baby. Bicampeonato de 1994.

Antes do Desfile das Campeãs, circulou a notícia de que a verde e rosa havia cedido matéria-prima para a G.R.E.S. Brasil, que enfrentou dificuldades financeiras com a verba municipal.

Apesar da solidariedade demonstrada em relação a uma co-irmã de estreitos laços, o gesto demonstrava sinais da falta de atenção das autoridades para com o Carnaval, antecipando a crise que viria anos depois.

Título em 1997. E a paralisação.

O panorama da disputa na passarela não se alterou muito na segunda metade da década de 90. A União seguiu brigando pelos títulos.

Em 1995, novamente a escola saiu da passarela como favorita após trazer um enredo sobre a história do papel – “Na magia da avenida, os papéis que envolvem a vida”. Contudo, boatos sobre pontos perdidos antes mesmo da abertura dos envelopes quase comprometeram a apuração. Ao final da apuração, o resultado trouxe o segundo lugar.

O jornal D.O. Urgente registrava como era o clima das apurações da época: “Fora do Teatro Municipal havia uma verdadeira torcida organizada. De um lado do canal, se posicionava a turma da União, identificada através de camisetas. Do outro, os torcedores das demais escolas que, em coro e anonimamente vibravam enquanto a grande líder do Marapé era ultrapassada”

No ano seguinte, mais trabalho fora da pista. O 4º lugar obtido com o enredo sobre a moda – Quem não tem roupa nova, passa o ferro na velha – se consolidou após sete recursos impetrados durante a divulgação dos resultados. Um deles tirou cinco pontos da União, por conta de uma fantasia supostamente irregular, inclusive levada pela diretoria à mesa apuradora para analisar o caso. De nada adiantou.

Tudo isso causou uma nova reciclagem. O desgaste dos últimos anos era evidente e a escola resolveu voltar às origens em 1997, defendendo um enredo sobre o próprio Carnaval desde a Idade Média, passando pelas exuberantes festas em Veneza e Florença, até chegar ao Marapé.

O título não poderia ser mais propício: “Meu destino é ser feliz, Carnaval, uma paixão nacional”. A mobilização verde e rosa se concentrou apenas em realizar um grande desfile, alheio aos desagradáveis episódios anteriores. E bastou o refrão ecoar no sistema de som, por volta das 4h da manha, para que a escola tivesse a certeza de que estava no caminho certo. A escola, “mordida”, recebeu notas 10 em todos os quesitos, sagrando-se pela campeã pela nona vez – oito pelo grupo principal.

Em 1998 a escola trouxe o tema O Mundo Mágico do Circo, obtendo o vice-campeonato. E em 2000, narrando as origens africanas do Brasil, ficou em quarto lugar em “Mãe África”. Em 1999 e durante o período de 2001 e 2005, por conta do descaso das autoridades, da falta de organização interna da liga e das próprias escolas, não houve concursos, lamentavelmente.

Para descrever as dificuldades que uma escola de samba como a União Imperial teve diante de um período tão longo sem a sua principal fonte de arrecadação, seria necessário um capítulo à parte. Felizmente, a comunidade do Marapé “abraçou” a escola e garantiu seu funcionamento nos “anos do silêncio”.

Em 2006, a retomada.

Somente em 2006 ocorreu a retomada do Desfile das Escolas de Samba. A União Imperial reencontrou seu público com o enredo Aplausos! Luz, Câmera, Ação… com Serafim Gonzalez, vem contracenando a União” – e conquistou o vice-campeonato, com 169 pontos. O desfile levou a assinatura de Santana, artista plástico do Marapé.

Foi um retorno emocionante, com um desfile que prestou uma justa homenagem a um dos mais ilustres moradores do bairro, valorizando também as raízes da comunidade que soube fortalecer a agremiação durante estes cinco anos de ausência. A escola desfilou também em Itanhaém, cidade que muito inspirou a obra de seu homenageado, numa exibição que cativou as arquibancadas. Também foi vice-campeã do Desfile Metropolitano, disputado em Praia Grande.

2006 (13)
As baianas da União Imperial reencontram a avenida. Carnaval de 2006.

Sob o crivo do carnavalesco Tito Arantes, de premiada trajetória em coirmãs paulistanas, a União realizou dois desfiles: “Theobroma – O Alimento dos Deuses, o Fascínio do Chocolate” (2007) e Talaque, Talaque, Talaque… Uma Tournée pelo Centro – A União Tomou o Bonde da História (2008), ambos idealizados por Camilo Martins.

Depois, foi a vez de Júlio Mattos, filho do lendário carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira, trazer sua consolidada reputação ao barracão Verde e Rosa: com ele, a escola homenageou a própria madrinha em 2009 (“Mangueira – Um Ato de Amor Ao Samba em 80 Carnavais“) viajou pelo universo das sensações em 2010 (Cinco Sentidos Para Ver, Ouvir, Tocar, Cheirar e Provar… E Um Sexto Para Quem Souber Usar), de Dionaldo Farias. Neste período, transitou entre o 2º e o 5º lugares.

Iguape, Portugal e Marapé (2011-2014)

Entre 2011 e 2014 a União Imperial inspirou-se em comunidades e povos irmãos para levar seu Carnaval à Passarela do Samba. Em 2011, numa parceria com a Prefeitura de Iguape – que resultou em um desfile histórico da escola naquela cidade – a Verde e Rosa contou Uma Vida Prá Chamar de Minha: Sou Caiçara, do Peixe com Farinha.

No ano seguinte, prestou reverência à colônia portuguesa da Baixada Santista com Reluz a Herança Portuguesa na Terra da Caridade e da Liberdade, lembrando sua influência em nossa região e personagens e instituições ilustres, como o empresário Armênio Mendes, o bar Último Gole e os clubes Vasco da Gama e Portuguesa Santista. Com problemas em seu carro abre-alas, a União atrasou sua entrada na avenida , mas conseguiu terminar em 6º lugar na classificação geral, apenas uma posição abaixo do Carnaval anterior.

2012 OrgoneHomenagem à Portugal no Carnaval de 2012, com a participação do Grupo Orgone.

O tributo às raízes da escola viria em 2013, com a esperada homenagem ao bairro do Marapé. Um acidente com a coirmã Sangue Jovem, horas antes, porém, cancelou o desfile . A diretoria resolveu manter o enredo para 2014, inclusive o samba, pela primeira vez na história da escola “encomendado” para a Ala de Compositores , reunindo grandes campeões de outrora.

Sou Marapé, Sou Canção: E Quem Disser Que Aqui Não Tem é Porque Não Conhece Esse Chão” devolveu a União Imperial à zona de premiação do Carnaval, com o 4º lugar conquistado. Desenvolvido pelo carnavalesco Reinaldo Trick, o enredo cumpriu a proposta de valorizar a gente do bairro, seus costumes e talentos, celebrando de Luiz Américo, Lolita Rodrigues, Serafim Gonzalez ao Clube Ouro Verde, os times de várzea do bairro, seu comércio e encantos naturais.

Democracia, vida noturna e a arte de Calixto

Filho ilustre da terra, Mário Covas foi o personagem central do enredo Abram-Alas, A Democracia Vai Passar: Santos Celebra Mário Covas“. Na estreia do carnavalesco Igor Macagi, a Águia voou pelo tempo para resgatar as origens da democracia e seu papel na história.

A escola inovou ao realizar um inédito flash-mob na Praça Mauá, para gravação do videoclipe do samba-enredo. O desfile, com uma proposta estética revigorada e arrojada, resultou em um 4º lugar e na conquista do Estandarte de Ouro da TV Unisanta, única a transmitir os desfiles na íntegra para a região.

DSC_0137O abre-alas do Carnaval 2015, que contou a história da democracia no mundo.

Em 2016, com um Carnaval dedicado aos 470 anos da cidade, a União Imperial apresentou “A Noite Abre Seu Manto, Santos Revela Seus Encantos“, contando os segredos, as histórias e os personagens da vida boêmia na cidade. O desfile novamente rendeu à agremiação o Estandarte de Ouro Unisanta de Melhor Escola e o samba-enredo foi um dos mais cantados do Carnaval 2016. Apesar disso, na avaliação dos jurados, a escola terminou em 7º lugar.

A mesma colocação foi obtida com De um traço fiz o mar, dos retratos a memória: Sou Benedicto Calixto, minha arte é nossa história” (2017), homenagem ao pintor Benedicto Calixto e sua obra, que poeticamente retratou a história da cidade de Santos e região. Este Carnaval marcou algumas estreias importantes: a do carnavalesco Renan Ribeiro, do intérprete Silvinho, do mestre de bateria Fábio Manguinha e da comissão de frente da Escola Livre de Dança de Santos, que teriam papeis determinantes na conquista do bicampeonato em 2018/19.

Bicampeonato 2018/2019

Nkisi Samba Kalunga: A Saga do Meu Batuque” (2018) devolveu à escola o título de Campeã do Carnaval Santista. Com nota máxima em todos os quesitos (excetuando duas notas descartadas), a escola desfilou o tema afro com muita garra, lembrando as origens da batucada em Santos, desde o Quilombo do Pai Felipe até a fundação da União Imperial, levando para a avenida Portela, Mangueira e dezenas de baluartes do samba santista e das suas raízes do Marapé.

Respeitável Público: O Picadeiro é Verde e Rosa? É Sim, Senhor” (2019) manteve a grande fase e arrebatou o bicampeonato para o Marapé. Com uma abordagem criativa, cheia de efeitos e participações especiais de trupes e artistas, a Verde e Rosa fez uma ode à história do circo no Brasil e a influência das diversas companhias internacionais na evolução do  espetáculo.

uniao-1-vanessaA entrada empolgante da Verde e Rosa na pista em 2019, para a  conquista do bicampeonato 

Desfiles mais recentes

Em seus três últimos desfiles a União manteve-se na briga pelo título do Grupo Especial, conquistando dois vice-campeonatos (2020 e 2024, respectivamente, com “De Verde  Rosa e Louco, Todo Mundo Tem Um Pouco” e “Azeviche, a Ascensão da Áurea Cor“) e um 3º lugar, em 2023, com “Se avexe não! O Marapé é pra cabra da peste, no meu Carnaval Made In Nordeste!. A escola recebeu também diversos reconhecimentos por meio do voto popular e da crítica, inclusive o Prêmio Estandarte Unisanta de Melhor Desfile, em 2024. 

Nesta última aparição, o enredo que fechou o ciclo do carnavalesco Renan Ribeiro na escola após oito anos  – os três últimos em parceria com Wallacy Vinycios – obteve grande reconhecimento ao contar a história de líderes e personalidades negras que se destacaram na história de Santos, como Pai Felipe, Santos Garrafão, Esmeraldo Tarquínio, Luiz Gama, Djamila Ribeiro e Alzira Rufino, entre outros. O tema recebeu o 3º Prêmio Incentivo do Conselho do Samba de Santos e gerou ações educativas, inclusive em escolas da região.

uniao-104Em 2024, a escola celebrou líderes e personalidades negras da história de Santos